As eleições de ontem tiveram o final mais ou menos esperado: Passos Coelho eleito Primeiro Ministro com carta branca para nos apertar ainda mais o cinto (a troika é que manda) e Sócrates sai da vida política.

No entanto, há muito mais a tirar dos resultados de ontem. A começar pelos votos brancos e nulos. Mais de 4% das pessoas que se deslocaram ontem às urnas não votaram num partido. Isto quer dizer que essas 223338 pessoas se deram ao trabalho de se deslocar a uma mesa de voto, mesmo sabendo que não queriam votar em nenhum partido. Este número entra quase em pé de igualdade com os votos de todos os partidos que não conseguiram eleger deputados: 246228. São então aproximadamente tantos os portugueses que preferem não dar o seu voto a ninguém como os que escolhem um "pequeno" partido.

Primeiras aparições de Passos Coelho, primeiros motivos de receio: a repetição do tocar do Hino Nacional como exaltação ao grande líder, faz recordar outros tempos dos quais ninguém se deve orgulhar.

Bloco o grande derrotado da noite, ao baixar para metade o número de deputados. A derrota do PS não é tão estrondosa já que era esperada e só não aconteceu em 2009 porque o PSD não teve habilidade para isso.

O PCP mantém a sua votação dos últimos anos, mais voto menos voto, o que também não surpreende. Tem um eleitorado fiel mas não consegue captar os "saltitões". O nome "comunista" mete medo a muita gente, não sei porque. Curiosamente o BE conseguiu esses votos em eleições anteriores mesmo sendo mais à esquerda do que o próprio PCP. Talvez porque as pessoas conhecem nomes, não conhecem programas nem ideais.

Ontem só foram eleitos 226 deputados dos 230 da Assembleia. Os restantes 4 serão eleitos pelos círculos da emigração. Não concordo que haja estes círculos. Quem sai do país à procura do melhor para si não deve tomar partido nas decisões do país. Ainda mais absurdo é que os cerca de 20000 emigrantes que deverão votar vão eleger mais deputados do que os 75000 votantes de Beja, os 75600 de Bragança, os 86000 de Évora ou os 61500 de Portalegre. E a divisão em dois circulo diferentes dos poucos votos faz com que tradicionalmente o PS tenha mais votos que o PSD mas o PSD consiga 3 mandatos e o PS 1.

Deixo para o fim aquela que para muitos é a vencedora da noite: a abstenção. Eu não dou tanta importância a estes números por um motivo muito simples: como é possível que num pais com cerca de 10 milhões de habitantes haja 9,5 milhões de eleitores? Os cadernos eleitorais estão desactualizados. O que pode influenciar os resultados na medida em que a distribuição dos deputados por distrito é feita pelo número de eleitores recenseados e pelo número de votantes. Assim, a divisão dos deputados por distrito seria mais correcta se fosse feita apenas na noite das eleições, perante o número de eleitores que efectivamente foram às urnas e não sobre os recenseados.

Juntando estas duas últimas ideias de terminar com o voto dos emigrantes e distribuir os mandatos com base nos votantes teríamos estes resultados:

PSD 107
PS 73
CDS 25
CDU 17
BE 8

Não haveria grande diferença nestas eleições, mas poderá haver noutras alturas.

Anúncios