Verdadeira ou à medida?

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Um grupo de pessoas deitou-se ontem no Rossio, em Lisboa, por uma "democracia verdadeira". Ora, pergunto eu, o que é uma democracia verdadeira? É aquela em que o povo elege quem nos governa, bem ou mal e goste-se ou não? Ou é aquela que serve os nossos (deles) interesses.
A verdadeira democracia viu-se no fim de semana anterior onde o povo escolheu os deputados para os próximos 4 anos. E, goste-se ou não, sejam ou não os da nossa preferência, é com esses que devemos viver nos próximos tempos. Se queriam mudança a sério, tivessem votado nos outros partidos, aqueles que nunca tiveram a hipótese de mostrar o que valem. Como a maioria votou nos do costume, é com os do costume que temos de viver, mais uns anos.

Rescaldo

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As eleições de ontem tiveram o final mais ou menos esperado: Passos Coelho eleito Primeiro Ministro com carta branca para nos apertar ainda mais o cinto (a troika é que manda) e Sócrates sai da vida política.

No entanto, há muito mais a tirar dos resultados de ontem. A começar pelos votos brancos e nulos. Mais de 4% das pessoas que se deslocaram ontem às urnas não votaram num partido. Isto quer dizer que essas 223338 pessoas se deram ao trabalho de se deslocar a uma mesa de voto, mesmo sabendo que não queriam votar em nenhum partido. Este número entra quase em pé de igualdade com os votos de todos os partidos que não conseguiram eleger deputados: 246228. São então aproximadamente tantos os portugueses que preferem não dar o seu voto a ninguém como os que escolhem um "pequeno" partido.

Primeiras aparições de Passos Coelho, primeiros motivos de receio: a repetição do tocar do Hino Nacional como exaltação ao grande líder, faz recordar outros tempos dos quais ninguém se deve orgulhar.

Bloco o grande derrotado da noite, ao baixar para metade o número de deputados. A derrota do PS não é tão estrondosa já que era esperada e só não aconteceu em 2009 porque o PSD não teve habilidade para isso.

O PCP mantém a sua votação dos últimos anos, mais voto menos voto, o que também não surpreende. Tem um eleitorado fiel mas não consegue captar os "saltitões". O nome "comunista" mete medo a muita gente, não sei porque. Curiosamente o BE conseguiu esses votos em eleições anteriores mesmo sendo mais à esquerda do que o próprio PCP. Talvez porque as pessoas conhecem nomes, não conhecem programas nem ideais.

Ontem só foram eleitos 226 deputados dos 230 da Assembleia. Os restantes 4 serão eleitos pelos círculos da emigração. Não concordo que haja estes círculos. Quem sai do país à procura do melhor para si não deve tomar partido nas decisões do país. Ainda mais absurdo é que os cerca de 20000 emigrantes que deverão votar vão eleger mais deputados do que os 75000 votantes de Beja, os 75600 de Bragança, os 86000 de Évora ou os 61500 de Portalegre. E a divisão em dois circulo diferentes dos poucos votos faz com que tradicionalmente o PS tenha mais votos que o PSD mas o PSD consiga 3 mandatos e o PS 1.

Deixo para o fim aquela que para muitos é a vencedora da noite: a abstenção. Eu não dou tanta importância a estes números por um motivo muito simples: como é possível que num pais com cerca de 10 milhões de habitantes haja 9,5 milhões de eleitores? Os cadernos eleitorais estão desactualizados. O que pode influenciar os resultados na medida em que a distribuição dos deputados por distrito é feita pelo número de eleitores recenseados e pelo número de votantes. Assim, a divisão dos deputados por distrito seria mais correcta se fosse feita apenas na noite das eleições, perante o número de eleitores que efectivamente foram às urnas e não sobre os recenseados.

Juntando estas duas últimas ideias de terminar com o voto dos emigrantes e distribuir os mandatos com base nos votantes teríamos estes resultados:

PSD 107
PS 73
CDS 25
CDU 17
BE 8

Não haveria grande diferença nestas eleições, mas poderá haver noutras alturas.

Palhaçadas

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Continuo sem perceber qual é a lógica de se publicarem sondagens quase diariamente, com percentagens baseadas nas respostas de 450 indivíduos e fazer uma festa sempre que há uma subida/descida de umas decimas. Eu se pegar num dado e o lançar 450 vezes por dia, também vou ter uns gráficos a subir e descer umas decimas por dia.
Além do mais, o que interessa é o número de deputados e não a percentagem de votos e esse número de deputados depende das votações por distrito. Ora, as sondagens dão sempre totais nacionais, que não elucidam em nada sobre a real intenção de voto dos portugueses.

Era uma vez…

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Era uma vez um país onde as pessoas olhavam sempre para o próprio umbigo e não queriam saber dos outros. Criticavam, irritados, quando alguém conseguia uma cunha mas não era por acharem que as cunhas eram algo que não deviam existir mas simplesmente por inveja. As pessoas que as governavam não eram diferentes das outras, continuando sempre a olhar mais para o próprio umbigo (e para o dos amigos) do que para o povo.

O Primeiro-Ministro tinha fama de mentiroso, tais eram as ditas e desditas que ele já tinha dito e feito que já pouca gente o levava a sério. E eis que surge um suposto salvador, que poria esse país na linha mas que, ainda antes de o ser, já tinha deixado cair a sua máscara e se revelara exactamente como os outros.

Chegou a altura das eleições e as pessoas podiam escolher entre o actual Primeiro-Ministro que todos criticavam, o suposto salvador que era praticamente igual ou romper com os habituais tachinhos e tentar uma mudança radical, votando nos outros.

Não posso ainda obviamente concluir esta história porque ainda faltam dois meses para as eleições mas espero, sinceramente, que haja um cartão vermelho a esta política que nos governou nos últimos 35 anos. Não digo vota A ou vota B, mas sim não votes PS nem PSD e mesmo o CDS teve o seu momento no Governo, conjuntamente com o PSD e foi o que se viu…

Por favor…

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calem-se!

Mais vale ficares calado e deixares as pessoas pensarem que és um idiota do que abrires a bola e dares a certeza!

O dia seguinte

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Abstenção

Mais de metade dos recenseados não votou. Desleixo de uns, supostos problemas com o número de eleitor de outros… e cadernos eleitorais desactualizados, não? Custa-me a crer que num país com cerca de 10 milhões de habitantes haja 9.422.835 eleitores inscritos.

Brancos e nulos

É preciso tirar lições destes números. Mais de 6% das pessoas que se deslocaram às urnas votaram em branco ou nulo. É o triplo dos valores normais para estes casos.

Defensor Moura

O desfecho esperado. Último lugar, ainda assim bem acima do que, por exemplo, Garcia Pereira conseguiu à 5 anos.

José Manuel Coelho

A surpresa. Ou talvez não. Um candidato com convicções de esquerda, apoiado por um partido de direita mas que ele próprio diz ser apenas a “barriga de aluguer”. Empate técnico com os votos em branco.

Francisco Lopes

Até tinha um discurso coerente. Mas tinha o PCP por trás, o que para muitas pessoas em Portugal é sinónimo de “Não votar neste”. Perdeu muitos votos em relação à votação de Jerónimo em 2006. Ainda assim veio o tradicional discurso de vitória.

Fernando Nobre

Considerado por muitos um dos vencedores da noite. Seria-o se não tivesse andado nos últimos dias a dizer que queria vencer à primeira volta. É de realçar a sua elevada votação, para um candidato de fora da política mas, ainda assim, muito longe do segundo lugar.

Manuel Alegre

É obviamente o grande perdedor da noite. Não só por não ter conseguido forçar uma segunda volta mas, principalmente, por ter perdido votos em relação a 2006.

Cavaco Silva

Eleito com menos de 25% dos votos dos eleitores recenseados, não deixa de ser o presidente da maioria que foi votar (e são esses que interessam). Começa o segundo mandato muito mal ao atacar tudo e todos. Se quer falar de verdade, eu pergunto: BPN? Casa da Coelha? Alegado caso das escutas?

Citando o El País: “Los portugueses han apostado por el continuismo en tiempos de crisis

Matemática

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É sabido que a maioria dos portugueses tem muitas dificuldades em matemática. Só assim se compreendem estas duas estatísticas dos últimos dias:

Metade dos portugueses diz que o país está pior do que antes do 25 de Abril

Como é possível que quase metade dos portugueses ache que estávamos melhores no tempo da ditadura. Esses portugueses viveram sequer esse tempo? Ou não fazem a mais pequena ideia sequer de como era o país antes de 1974? Já bastou a barbaridade de elegerem num programa da RTP, Oliveira Salazar como o grande português. Tenham juízo e não brinquem com coisas sérias.

Estudo de opinião dá vitória larga a Cavaco à primeira volta

Engraçado como as sondagens agora viraram estudos de opinião. Será que assim se tem legitimidade para inventar o que se quer?
Não deixa de ser curioso o facto da Marktest falar em 61,5%. É que já em 2006 apareceu uma sondagem da Marktest uns dias antes das eleições a dar 61% a Cavaco (que teve depois 50,5% nas eleições). Essa mesma sondagem dava 11,5% a Alegre (que veio a ter 20,7% nas eleições).
A imprensa está a levar Cavaco Silva ao colo mas cabe a todos nós mostrar que pensamos por nós próprios e não naquilo que eles nos querem impor.

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